Patas da Rua

 

Notícias

Ver todas as Noticias

Crônica de Mário Pereira, publicada no Caderno Donna DC, do Diário Catarinense, de Florianópolis, SC

10/02/2008

Lord Igor

Você tinha classe, algo que faz uma falta terrível nesses tempos de vulgaridade e grossura

Cumpro o doloroso dever de informar que Lord Igor faleceu, em provecta idade, enquanto dormia em paz na sua casa de praia. Seu valente e generoso coração parou de bater em uma noite cravejada de estrelas. Noite em que a lua nova deixava um rastro de luzes no mar, que quebrava manso na areia. Uma brisa, suave como afago de mãe, espargia pelo ar os perfumes da mata e os do oceano. Noite perfeita para dormir um sono tranqüilo e, dormindo, alçar vôo rumo à eternidade.

Lord Igor teve a morte que o Criador reserva àqueles a quem ama. Prefiro pensar que ele não morreu. Apenas cerrou aqueles oblíquos olhos azuis, já enevoados pelo tempo, mergulhou no sono dos justos, e despertou nos verdes campos dos eleitos, o recinto da eterna bem-aventurança.

Adeus, Igor. Você foi bom e corajoso, um amigo leal e dedicado. Mesmo no sofrimento e na doença, você foi elegante, discreto e educado. Você tinha classe, algo que faz uma falta terrível nesses tempos de vulgaridade e grossura. Você foi um grande senhor, um verdadeiro aristocrata, um Lord.

Adeus, Igor, nós, que tivemos o privilégio da sua companhia, jamais o esqueceremos. Você enriqueceu a nossa existência. Adeus, Igor, você foi um cachorro maravilhoso, e orgulhamo-nos de ter cuidado de você na derradeira etapa da vida.

Daqui, vejo o canil vazio, lá embaixo, num canto do gramado, em meio a arbustos e bromélias. Lá ainda estão o pote em que você comia e o bebedouro. Mão gelada comprime o meu o coração ao dar-me conta de que não mais o verei por ali.

Tenho a certeza, amigo Igor, que este derradeiro lar lhe foi doce e confortável. Nós nos esforçamos para dar-lhe toda a atenção e todo o carinho merecidos, e para que nada lhe faltasse na velhice - e 17 anos para um cão é muita coisa - e na doença.

Caminho até a varanda do segundo piso da casa. De lá, avisto o mar e a praia onde costumávamos passear nos finais de tarde. No nosso último passeio, dias antes da sua morte, na volta para casa, como sempre, sentamos numa duna ali em frente, e ficamos contemplando o mar enquanto o sol avermelhado mergulhava na água.

Igor sempre saudava este monumental espetáculo da natureza com um longo e alegre uivo. Naquele dia ficou em silêncio, mas fez algo inusitado: colocou suavemente uma pata sobre minha perna, e ali a deixou ficar alguns minutos. Hoje penso ter sido aquele um gesto de despedida e gratidão.

Da varanda também vejo o pequeno bosque onde enterramos nosso amigo numa cova funda, depois de acomodar seu corpo em um resistente saco de lona. O túmulo foi sinalizado com pedras brancas. Quando o outono chegar, ali plantaremos uma árvore. Ela terá que ser frondosa e em seus galhos há de abrigar muitos pássaros.

Jovem e vigoroso, com seu viçoso pêlo prateado e com seus olhos azuis brilhantes de novo, nosso bravo husky siberian corre e brinca pelos bosques e planícies cobertos de neve de sua terra ancestral, feliz eternamente. Adeus, Igor, Lord Igor. Nós te amamos muito. Espero que um dia nos reencontremos nos campos do Senhor onde nada nos faltará.